A profissão que se espera e se considera mais neutra é o jornalismo. Permanecendo no mesmo campo de interesse de outros trabalhos, As Mil e Uma Noites persegue a ideia de a partir do embate de imagens desvinculadas, conseguir uma narrativa, ainda que desconexa. Desta vez, impulsionada por imagens extraídas de noticiário de jornais diários, reconstrui uma história, nada neutra, perpassada pela ótica de quem as criou e de quem as selecionou.

Uma vez mais a aquarela serve para atribuir leveza, mas também imprecisão àquilo que se queria objetivo.

Ainda dentro do que acredito ser o indivíduo, uma soma de tudo o que se vê, lê, come, fala, as notícias de jornal são, uma vez mais, nutrientes de um sujeito multifacetado. Quer seja pelos diversos interesses, quer pela variedade de assuntos que chegam a ele.

O título faz uma alusão direta à coleção de contos homônimo em que a narradora, Sherazade, para evitar ser morta ao terminar a história, perpetua o interesse do rei da Pérsia, contando, por mil e uma noites, histórias maravilhosas, todas interligadas, uma complemento da outra. Passados mil e um dias, a intimidade fez com que fosse salva. O jornalismo parece trazer todos esses ingredientes, perpetuar o interesse contando histórias para não se chegar à morte, interligar casos, que com o passar do tempo caem no esquecimento-convívio.

Da mesma forma, pretendo contar histórias visuais, de segunda mão, já que quero reproduzir imagens de terceiros, de forma imprecisa (a aquarela), nada imparcial, pois elegerei segundo meu gosto e aptidão, até quem sabe, um dia, criar tamanha empatia com o “leitor”, que se possa evitar a morte.

As mil e uma noites