Nesta edição de Registro Geral fiz um mapeamento de pessoas que eu conheço, através das fotos de seus documentos de identidade. As fotografias de documentos são aparentemente as mais isentas de índices sociais, pois são feitas em ambientes neutros de estúdio, com iluminação artificial, enquadramento frontal em close-up, sem expressões faciais. Contudo, ainda assim, é possível perceber uma multiplicidade gerada pelas feições reunidas.
Na obra está em jogo como cada pessoa se relaciona com sua autoimagem, pois algumas tiveram dificuldade em me emprestar o retrato de seu documento, visto que trata-se de uma foto nada glamurisada, sem retoques, numa época em  que estamos nos acostumando a produzir e retocar fotos para divulgá-las nas redes sociais, locais onde as pessoas aparecem sempre lindas e felizes.
O trabalho questiona também o grau de confiança que se pode depositar no outro. Muitos amigos entregaram as fotos sem questionar o que eu faria, ou mesmo sabendo que seus rostos figuriam em uma exposição, já outros perguntaram para o que seria, e até mesmo se recusaram a emprestar.
Outra camada possível de ser percebida é a da imprecisão de nossas identidades. Aquela imagem que está sendo mostrada ali na instalação é a pessoa e já não é mais, a identidade é instável.
As imagens são construídas na obra através de um transfer passado para uma base de madeira e massa corrida, num procedimento inventado por mim. No resultado, vemos as pessoas que colaboraram, mas a imagem não é nítida, ganhando uma atmosfera por vezes fantasmagórica. Com este trabalho, abordo vários campos de interesse presentes no conjunto de minha obra. As conexões geradas entre as pessoas e o quanto isto altera o rumo de cada vida e a pluralidade existente até nas coisas aparentemente neutras.
Me proponho com este trabalho, a cada vez que este for exposto, incorporar fotos das pessoas que eu for conhecendo pelos locais variados. Com as exposições, as redes pessoais se expandem e a obra vai refletir isto.

Registro Geral #2