Ato falho

Ato falho é uma noção desenvolvida por Sigmund Freud para descrever a realização de um desejo do inconsciente, quando este se trai e revela suas reais intenções. 

Esta é a ideia que norteia o trabalho constituído por fotografias, contendo imagens flagradas do cotidiano, em diversos lugares do mundo, sem roteiro pré-definido.

É possível perceber nas imagens o abandono, o descompasso, o exagero, a ingenuidade, o desequilíbrio, a coincidência. Cada imagem tem vida própria, se sustenta sozinha, mas no convívio com suas parceiras criam uma narrativa desconexa. 

É esta ficção sem autor que eu nomeio como ato falho. Para o sujeito viver em sociedade, algumas normas são estabelecidas, cada coisa tem uma função, as pessoas, seus papéis determinados, sendo assim, tudo deveria estar funcionando bem e no seu devido lugar, mas isto não acontece. A vida comete lapsos, como se acontecesse um curto circuito na realidade. 

A arte é a forma de percebermos estas brechas. A obra quer mostrar estes rasgos, por onde é possível entrever o invisível.

Leda Braga

Na construção de sua narrativa visual Leda Braga opera entre duas esferas: em alguns momentos efetua uma operação de ressignificação de objetos banais, retomando-os como temas legítimos dentro do campo artístico, em outros recupera situações singulares do dia a dia, observadora atenta que é das coisas e das cenas urbanas inusitadas.
Confrontando universos distintos, ora dos objetos produzidos em massa, ora da incongruência do cotidiano, ela sugere o lapso existente entre a promessa de uma contemporaneidade pautada pela oferta de mercadorias em abundância, quase ilimitada e a realidade, precária, incompleta. Leda insinua assim o ato falho, o arcaico e o improvisado do cotidiano, no projeto pós-moderno do fluxo de mercadorias em escala global, a confirmar a impossibilidade concreta de sua realização.

Eder Ribeiro