Texto crítico para a individual “Registro Geral”, Sesi, em itinerância por Rio Claro, Campinas, Bauru e São José do Rio Preto, 2015.

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Randômicos e incessantes

A investigação da identidade contemporânea está no cerne da produção de Leda Braga. Por meio de obras em diferentes linguagens, a artista paulista esboça questionamentos sobre conceitos como memória e esquecimento, o local e o global, enraizamento e deslocamento, exteriorização e introspeccão, entre outros vetores poéticos.

Os trabalhos da série Registro Geral que Braga apresenta na exposição homônima traçam diálogos com preocupações recorrentes na obra de variados artistas e tendências. Uma delas foi exemplarmente exibida na 30ª Bienal de São Paulo, em 2012. O curador Luis Pérez-Oramas colocou em xeque noções como singularidade e estandardização ao reunir, muito perto, um conjunto de fotografias do alemão August Sander (1876-1964) e outro do holandês Hans Eijkelboom. A monumental retratística do fotógrafo alemão era uma clara afronta, por meio de uma seriada e austera compilação de tipos humanos, a ideias como eugenia e higienização defendidas pelo regime nazista à época, com registros das mais diversas classes e facetas da sociedade múltipla do país europeu. Já o artista da Holanda também criou uma volumosa listagem iconográfica de pessoas comuns cidades afora, orientada em especial pelo que vestem, durante décadas, a partir dos anos 70. O artista, assim, desmonta qualquer indício de ser original, singular, em um mundo de costumes e moda globalizado e sem fronteiras, mesmo as que pensávamos anteriormente mais rígidas.

Pois bem. Nos dois conjuntos de Registro Geral, a artista paulista elege a imagem fotográfica como fonte e a ressignifica por meio de estratégias distintas. No projeto mais recente, de 2014, Braga realiza um transfer fotográfico, fazendo com que a finalização dos trabalhos resulte em um tom mais ligado à fotografia. No projeto inicial, apresentado em exposição em 2011, o tom que permanece guarda mais elos com o pictórico, já que a acrílica sobre massa corrida e papel paraná liga todo o conjunto a exemplares de arte popular no Norte e Nordeste do país, as fotopinturas, embebidas num estilo que beira o precário e que deseja associar os desgastes do tempo, a marcar o material-fonte, à criação de hoje. Outro dado importante é que os trabalhos mais novos perderam escala e se aproximam da proporção dos documentos originais.

O certo é que, em ambos os momentos, tal série perpassa um caminho algo sombrio, até fantasmático. A justaposição dos rostos-documentos em uma instalação, tanto na mais antiga quanto na de agora, cria uma incômoda reunião, que lembra a dos retratos mineralizados em sepulturas, em especial quando em menor tamanho. Por onde andam todas essas pessoas hoje? Ou: O que foram elas nesses determinados períodos da captação de imagens? A artista parece, assim, confrontar o observador com a sua própria finitude. Lembra as figuras do epílogo de Cassino (1995), um dos melhores filmes de Martin Scorsese, envoltas numa luz enigmática e prontas para rodar novamente as engrenagens do jogo/consumo/vida, num movimento não cessante.

No entanto, para além da flagrante impermanência, Braga trata dos impasses do sujeito contemporâneo, “um sujeito fragmentado, poroso, esgarçado, somado, impreciso”, segundo suas palavras. Nesse sentido, a coleta de imagens para a segunda parte de Registro Geral é mais justificável. Se no primeiro recorte, a web e o de certa forma fascinante fluxo ininterrupto de informações alimentavam o que seria o resultado final do trabalho, na porção mais recente os ‘fornecedores’ do material bruto que a artista irá modificar, intervir e transmutar são conhecidos, de círculo próximo. Nessa alquimia tão característica da arte, tornar o familiar, o doméstico e o corriqueiro algo mais universal e com atributos não vistos e percebidos a priori, outras obras como Persona (2015) e Sanduíche de Gente (2014) possuem um dado relacional, um precisar do outro, mais enfático. Com isso, a produção de Leda Braga se encaminha por vias mais permeáveis, quase como um convite a andar juntos. Assim, a mostra Registro Geral defende, ao fim, um partilhar verdadeiro, menos performático-virtual e mais especular.

 

Mario Gioia, fevereiro de 2015