Registro Geral: ou a Possibilidade dos Encontros

 

 

Há algum tempo, pediram-me um documento. Entreguei minha carteira de identidade, que data de pelo menos 20 anos atrás e, em seguida, a pessoa que a recebeu perguntou se eu não teria outro documento com foto mais recente. Como em uma cena do filme Waking Life, de Richard Linklater, entre a minha imagem antiga e a mais recente há uma narrativa que as liga, e nem todos a conhecem. Às vezes, nós mesmos não nos reconhecemos mais em fotos de criança. Penso que Registro Geral, de Leda Braga, em sua segunda edição, propõe um jogo duplo: um encontro entre pessoas, e entre nós e nossas imagens.  Um encontro entre pessoas, pois se trata de imagens de documentos de pessoas conhecidas pela artista, e que não necessariamente conhecem-se entre si. Assim, infinitas relações de contato podem ser estabelecidas, tanto no sentido das afetividades (im)possíveis como no sentido hoje clássico das chamadas obras abertas, em uma espécie de padrão estocástico - uma exposição que pode gerar infinitas outras exposições. Registro Geral também remete à nossa identidade imagética. A foto de um documento pode traduzir, associada a determinados nomes, nossas ligações familiares; todo documento também demonstra formas de controle social: de maneira estranha, ele é uma espécie de prova que existimos (ou mesmo que existimos um dia, ou ainda, que um dia existimos dessa ou daquela forma).  Ao destacar as fotos dos documentos pessoais e as expor em conjunto, Leda Braga nos propõe olharmos e sermos olhados por essas imagens, às quais podemos perguntar por sua história recente ou passada, imaginando narrativas com alguma ou nenhuma verdade, e que, por sua vez, nos interpelam, em seu silêncio: quem somos (ainda)?

 

Caio Aguilar Fernandes

 

 

 

Texto feito para a exposição "Registro Geral", no Sesc Ribeirão Preto, em janeiro de 2015